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sábado, 1 de outubro de 2011

Olhos fechados (Parte 1)


Correu. Foi-se em direção à porta na maior velocidade que conseguiu atingir, mas o tempo, ao que parece, naquele dia não se inclinara à bondade. Seu relógio já lhe alertava sobre o atraso e agora o metrô tratava de revolver o problema momentaneamente enterrado. Parou a poucos, contáveis centímetros do trem e bufou. Não é possível que meu dia esteja desse jeito. Hoje a sorte resolveu virar a cara para mim, pelo visto.
         Aparentemente enganara-se, pois as portas do vagão abriam-se novamente à sua frente. “Não segure as portas do trem. Isso provoca atraso em todo o sistema”. Ok, isso não vira ninguém fazer, mas já que aquela mesma sorte, há até alguns segundos distante e impassível, agora girava um pouco o rosto para o lado a fim de lançar-lhe um olhar de soslaio era melhor que aproveitasse a deixa e adentrasse logo o veículo.
         Pelo menos isso, pelo menos isso. Sentou-se ao lado de uma criança inquieta que rolava seus dois carrinhos pela janela. “Mãe, mãe, o azul é mais rápido, olha!”. A mulher dirigiu ao garoto um sorriso, fingindo se importar mas lembrando a si mesma de que o marido ainda não voltara de seu passeio da noite retrasada. “Onde estará, meu Deus? Como pode sumir assim? Será que o canalha me trocou por uma vagabunda por aí? Mas se eu pego ele... vai ver que dele não sobra nem metade”. Ah, agora essa barulheira. Vou é me sentar em outro lugar. Ninguém merece criança chata a essa hora do dia.
         E levantou-se. Fisicamente com o andar habitual, mas mentalmente com a mesma pressa – ou talvez até maior – que tivera fazia alguns minutos em sua tentativa de não perder o trem. A mulher e o filho ficaram para trás; ele brincando com a irrealidade externa da brincadeira e ela tentando concretizar internamente aquilo que lhe parecia ainda pouco real. Caminhou por entre os carros até alcançar quase a outra extremidade da composição. Sentou-se novamente. Que bom, aqui não tem ninguém irritante. Sua cabeça parecia ser atraída para a parede. O sono colaborava, claro. Sem pestanejar recostou-a e relaxou. Só não podia perder a estação. Daqui três preciso descer. Não posso esquecer de pegar as flores no quintal da dona Neide olha que coisa mais bela! Quero uma assim na minha casa. Não, não, sem muito cheiro se não a alergia me ataca e você viu o noticiário? Chuva de asteróides? Imagina, que absurdo a mãe dele dizer tais coisas. Ah, olhe o céu. Olha que coisa mais bela!
         Pum! Seu corpo sacudiu e seus olhos piscaram. Cochilara sem perceber. Preocupou-lhe saber onde se encontrava e olhou para fora do trem. Ainda bem, faltavam duas estações. Que bom que não dormi tanto assim. Mas preciso tomar cuidado, senão dona Neide! A senhora por aqui! Como vai? Pum! Droga, não posso dormir! Por que diacho não fui pra cama mais cedo noite passada? Estou tão cansad... “Uma chuva de meteoros cairá essa noite na Terra. Para aqueles que estão nos observatórios do Hesmifério Sul será um espetáculo”. São meteoros, não asteróides! Esse povo tá doido! Preciso contar a ela que... Pum! Acordou novamente e arregalou os olhos até quase saltarem das órbitas. Acorda, caçamba! Se eu passar da estação e atrasar ainda mais meu chefe me estrangula. Acorda, senã...
         Seu olhar se deteve. O corpo inteiro retesou e o coração saltou-lhe à boca. Se a beleza podia tomar forma humana, se lhe era possível encarnar-se entre os pobres mortais desse planeta então ela estava ali naquele momento. Olhos brilhantes, cabelo como nenhum outro e corpo esculpido a dedo pelo mais talentoso artífice já existente. O rosto se delineava em pura perfeição. O mundo definitivamente parara. Como poderia aquilo ser real? O que é isso? Ele é o homem mais lindo que já vi em toda a minha vida. E seus 29 anos lhe davam certa moral para dizê-lo. Será que ele tá me vendo? Meu Deus, mas e se ele... Quantas estações faltam? Merda, é a próxima. Logo agora que esse cara chegou aqui. O que que eu faço?
         Num misto de faz-não-faz, fala-não-fala, vai-não-vai levantou-se. O leve balanço do trem desnorteava um pouco mas não era suficiente para lhe tirar o equilíbrio. Um passo à frente, dois para trás e o arrependimento lhe golpeando incisivamente o coração. O que eu posso fazer, oras? Falar um oizinho como se fôssemos colegas? Não, não rola. Mas ele é tão... “Próxima estação, Pinheiros". Ele levantou, ai meu Deus! Será que eu não to horrível? Deveria ter me arrumado melhor. Ah, não! Saiu do metrô junto com a multidão (coisa rara na estação Pinheiros esse metrô cheio assim!) debatendo em cochichos retóricos o quanto aquele dia se lhe mostrava ingrato. Perder um cara lindo daqueles, como pude?
         Verdade é que o rapaz – ou deus grego, se assim convier – apenas mudara de lugar, sem insinuar realmente intenção de deixar o meio de transporte. Melhor ir trabalhar e não pensar nessas bobeiras. Ganho muito mais! E foi-se, com pressa, desassossego e nervosismo. Um pouco de cada pra completar seu belo dia. É, isso mesmo. Tudo pra completar meu dia.
        

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O lixo já está cheio!

Gritou. Gemeu, contorcendo-se em sua pequena gaiola. A sensação era intensa. Seu corpo inteiro doía, seus olhos ardiam. O olfato captava um leve cheiro de queimado, mas os olhos não respondiam ao cérebro. Permanecia sem nada ver. Só a escuridão e os ruídos estavam alí.
- Não acha que seria melhor subir um pouco a voltagem?
- Lógico que não! Ele ainda não se acostumou. Vê? Continua esperneando como se ainda fosse o primeiro choque. Aumentar a intensidade poderia matá-lo.
Pareceu ter recobrado um pouco a consciência e se pôs a fazer barulhos numa tentativa frustrada de chamar a atenção de alguém. Não se pode dizer que raciocinava, posto não possuir sequer uma língua; os sinais de sofrimento, no entanto, eram claríssimos. Se pudesse falar provavelmente estaria pedindo socorro ou dizendo impropérios àqueles dois homens. Talvez fizesse os dois, na verdade.
- Vamos lá!
Um deles apertou o botão e novamente os gritos encheram a sala. Nada mais se ouviu durante cinco segundos; somente o escandâlo e o som do corpo se batendo em desespero contra as grades. Breves segundos que para aquele ser assemelharam-se a anos. A eletricidade deixou, então, de correr, cessando também a gritaria. A respiração da criatura estava ofegante, seu coração parecia querer sair-lhe pela boca. Os membros tremiam freneticamente enquanto ele se encolhia no chão.
- Droga! É tão difícil assim perceber que indo pro outro lado os choques param?
- E olha que esse nem é um dos piores. Lembra daquele que ficou 3 horas seguidas sendo eletrocutado até que finalmente decidiu tentar fugir e deu de cara com a outra parte? Às vezes eles dão um trabalho.
- Nem fale. Pior é quando nos mordem! Já perdi a conta de quantos me feriram quando tentei agarrá-los.
O botão foi então novamente pressionado e o martírio voltou.
- Mas sabe de uma coisa? Não sempre, mas ocasionalmente acho legal ver as reações de alguns deles.
- Sério?
- Sim. Só me irrita muito quanto vomitam em tudo. Dá um puta trabalho limpar essas porcarias e aí vem um infeliz pra sujar novamente.
- Ah, isso é verdade. Pelo menos esses aqui não ficam cheios de feridas pelo corpo. Melhor assim, sem sangue.
- É, mas de vez em quando surgem umas hemorragias, né? Dependendo de como for é outra coisa que exige muito tempo pra consertarmos. Bom mesmo é quando é só hemorragia interna.
- Você se diverte vendo isso tudo?
Os dois pareciam, naquele momento, ignorar o choque que continuava a ser aplicado, embora a criatura estivesse fazendo um barulho muitíssimo maior se comparado aos testes anteriores. Jogava ainda com mais força todo o seu peso contra as paredes da gaiola. Era inútil, no entanto. A armação não se movia um centímetro sequer. Nada mudava. Tombou, sentindo estar a ponto de sucumbir, de não mais suportar aquela sensação. Seu corpo ardia, latejava; sua cabeça estava atordoada. A boca secara quase completamente. Espremia os olhos e compactava o corpo o máximo possível.
- Não diria se tratar exatamente de diversão. É curioso ver as expressões faciais, os movimentos, ouvir os guinchos e o esperneio todo. Para mim, parece um daqueles passatempos perfeitos para os momentos de tédio, sabe? O melhor é que nos pagam por isso.
Ambos riram, deixando grandes sorrisos tomarem conta de seus rostos.
- Entendo. Não difere muito de mim, então. Gosto também de ver como se desenvolvem depois. O comportamento depressivo, a insônia, a agressividade. Tem muita coisa que não colocamos nos relatórios, mas...
- PORRA! Você desligou o negócio?
- Que negóci... Não, não desliguei! Merda, merda, merda!
O homem correu para desativar o mecanismo, amedrontando em pensar que a cobaia talvez não tivesse resistido ao choque contínuo. Aproximaram-se da jaula e observaram. Nenhum sinal de respiração, nenhum choro. Nada. Só o silêncio. Trocaram olhares e pegaram as chaves para abrir a portinha e retirar o corpo já inerte daquela criança. Quando pegaram-no parecia estar dormindo. Um sono leve, calmo, como se sua mãe o tivesse no colo e nada pudesse, portanto, lhe fazer mal. Seu sono, entretanto, era profundo demais para que um dia dele despertasse. A morte chegara a ele em menos de dois anos de vida. Seu sofrimento se esvaíra.
- Cacete, viu?! Se ficarmos errando certamente seremos demitidos! Colocarão um fim à nossa experiência.
- Eu sei, eu sei! Não precisa falar.
- Ele era o A19, né?
- Devia ser, sei lá! Caralho, esse lixo aqui já tá cheio!
- Pega um outro, então! Saco é o que não falta.
O homem abriu um armário embutido e retirou uma sacola, depositando aquele pequeno humano dentro dela. Amarrou com força e colocou-a ao lado do cesto que estava lotado. À noite levariam os resíduos e o laboratório ficaria limpo. No dia seguinte chegariam alguns bebês novos para dar prosseguimento aos testes, mas isso não lhes preocupava muito. Já viriam até numerados, o que facilitava o trabalho. De onde aquele saco novo saíra havia muitos outros e os lixos já teriam sido esvaziados pelo amanhecer. Só rezavam para manterem seus empregos e conseguirem algum resultado em suas análises.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Duas faces de uma mesma moeda

Indignou-se por completo. Como assim a sua melhor amiga traíra o namorado daquela forma? Como tivera coragem? "Uma garota tão bonita, tão inteligente, tão meiga e carinhosa...que diabos haveria ocorrido pra que ela cometesse tamanha besteira?", indagou-se. Por fim desistiu de seu aparentemente preciosíssimo silêncio e lançou-lhe algo para refletir:
- Você pelo menos pensou no que ele sentiria quando soubesse?
Silvana balançou a cabeça para os lados, espremendo levemente os lábios e encarando a outra moça.
- Não, Lúcia! Nessas horas nós não pensamos em nada. Só acontece, sabe? - desviou o olhar por breves instantes - A culpa veio depois mesmo.
- Como assim "a culpa veio depois"? - disse em voz alta, assustando-se um pouco com seu próprio tom - Será que o tempo com o outro não foi suficiente pra te fazer refletir sequer por um segundo? Faltou cérebro na hora ou os pensamentos simplesmente foram embora? Não é possível, meu Deus! - colocou as mãos em sua cabeça e deu meia volta, olhando para o teto do refeitório - Onde esse mundo vai parar?
- Nossa! Esperava um pouco mais de apoio, pelo menos!
Silvana falava com a cabeça abaixada, os olhos cheios de água e uma voz apertada que parecia não desejar sair de sua boca. Esforçou-se e conseguiu um argumento em sua defesa.
- Acontece com muita gente, Lúcia! Eu não fui a primeira e nem serei a última, te garanto!
- Ahhhh, - irritou-se por fim, virando-se rapidamente e encarando a amiga nos olhos - não me venha com essa, de forma alguma! Isso é sacanagem, safadeza, falta de caráter, coisa de quem...
- De quem o quê? - gritou Silvana - Hein?! Vai dizer que nunca errou com ninguém, que é uma santa? Você não é nem um pouco melhor que eu, minha filha, tenha certeza!
- Nesse ponto te garanto que sim! Nunca trairia alguém, nunca mentiria para uma pessoa que amo! Isso não se faz, Silvana, de forma alguma! Não esperava uma atitude dessas vinda de você. E, - prosseguiu, interrompendo com um gesto a amiga que já reiniciaria seu discurso - espero que você tenha decência suficiente pra contar ao Flávio tudo que aconteceu. Enquanto não fizer isso não espere nada de mim, entendeu?
Sem parar para aguardar uma resposta pegou sua bolsa e saiu da sala, deixando a amiga sozinha. Aquela poderia não ter sido a melhor coisa a se fazer, pensou, mas não havia outra opção. Seria totalmente errado compactuar com o erro de Silvana e, portanto, não devia, de maneira nenhuma, falar dócil e calmamente com ela. Tinha que mostrar rigidez, opinião forte e imutável. Era isso mesmo! Estava certíssima e veria futuramente os bons frutos de sua decisão.
No caminho para sua casa, sentada no banco do ônibus, abriu uma revistinha há muito guardada em sua bolsa, dessas que compramos pela simples vontade efêmera de gastar dinheiro, e começou a folheá-la. Uma pequena história chamou-lhe a atenção e decidiu lê-la por completo.

"As duas faces da moeda"
O homem caminhava pela rua calmamente quando, ao tentar pegar uma bala dentro de seu bolso, deixou cair uma porção de moedas no chão; estas, todavia, não foram muito longe, parando a poucos centímetros do pé do sujeito. Quando ia abaixar-se para recolhê-las uma voz o assustou.
- Não, não faça isso!
Olhou rapidamente para a fonte daquela fala e viu um senhor baixo, de cabelos grisalhos e barba mal feita. Vestia-se malmente, como se usasse roupas apenas para cobrir sua nudez, não as vendo como algo realmente importante.
- Essas moedas são suas? - perguntou o estranho.
- S-sim. São minhas. Acabei de deixá-las cair sem querer.
Ao terminar de responder, o rapaz já ia se agachando novamente, mas foi interrompido pela mão do indivíduo ao seu lado.
- Espere um momento, cavalheiro!
- Esperar pelo quê? - falou, começando a irritar-se com a situação. Queria somente recolher seus pertences e prosseguir seu caminho, sem que para tanto precisasse ser importunado por um velho chato e desconhecido.
- Vejamos...
O outro homem ajoelhou-se no chão e começou a olhar as moedas enquanto falava baixo consigo mesmo. As poucas pessoas ao redor olhavam a cena com certo repúdio, mas, para manter a classe, fingiam estar ocupadas demais com suas próprias vidas e, portanto, serem indiferentes à situação. O dono do dinheio estava prestes a largar tudo aquilo ali mesmo e ir embora, pensando que talvez aquele senhor fosse um mendigo querendo arranjar pretexto para roubá-lo. Quando ia dar o primeiro passo, entretanto, o estranho falou:
- Interessante! Muito interessante mesmo!
Recolheu todas as moedas e devolveu-as ao proprietário. Encarou-o por breves segundos, refletiu e pousou sua mão sobre o ombro do homem.
- Concederia-me a honra de sentar-se um momento comigo? - pediu gentil e simpaticamente - Todo esse ocorrido fez-me pensar sobre algo que até então eu não refletira a respeito...queria compartilhar meu pensamento com alguém. Que me dizes?

Nesse momento um homem que passava no corredor deixou acidentalmente sua bolsa esbarrar em Lúcia, desculpando-se imensamente em seguida. Ela não se importou, mas o incidente fizera a revista cair de suas mãos e agora não conseguia encontrá-la. Estava começando a ficar irritada quando recebeu um cutucão em suas costas.
- Senhora, creio que isso seja seu.
Ela olhou rapidamente para a mão da pessoa que lhe chamara a atenção e viu sua revista, ficando feliz e agradecendo entusiasticamente.
- Não foi nada. - disse o homem - Aliás, essa revista é excelente! Pena que muita gente não a compra ou, se o fazem, deixam-na jogada em uma gaveta ou bolsa sem jamais ler uma página sequer.
Lúcia sorriu ligeiramente tímida e concordou com a cabeça. Virou-se para a frente novamente, o coração quase imperceptivelmente acelerado, abriu na página que estava antes de toda aquela confusão e passou os olhos pelas linhas até encontrar onde parara. Olhou pela janela para certificar-se de que ainda faltava um pouco para chegar ao seu destino e retomou a leitura.

O homem hesitou por alguns instantes. E se aquele cara quisesse fazer-lhe algum mal? Coisa boa não poderia ser, pensou. "É melhor eu agradecer, ir embora e deixar esse maluco pra trás antes que aconteça o pior", disse a si mesmo.
- Obrigado, senhor, mas eu estou com um pouco de pressa. Se não se importa, eu gostaria de...
- Pois me importo, claro! Custar-te-ia um olho ou muito dinheiro doar um pouco do teu tempo para bater um papo com um pobre e sozinho velho? Que há convosco, pessoas atarefadas e impacientes, que ignoram a presença de tudo aquilo que aparentemente não vos diz respeito?
O homem não soube o que responder. Melhor era não estender o papo e sair adando rápido. Se a situação piorasse, certamente correria. Foi parado novamente, todavia.
- Far-te-ei uma pergunta somente. - disse o outro - Se não quiseres respondê-la poderás ir embora, mas caso digas algo quererei debater contigo a questão e terás de fazê-lo. Aceitas?
Não, não aceitava. Só não teve tempo de dizê-lo.
- Pois bem. Viste quando tuas moedas caíram, certo?
O rapaz nada disse.
- Bem, quem cala consente, deste modo tomo um "sim" como resposta a isso. Espero que saibas, logicamente, que todas as moedas possuem dois lados.
É claro que sabia. A pergunta o deixara ainda mais nervoso por sua obviedade.
- Mas a questão não é essa. Poderias me assegurar, sem sombra de dúvida, que suas moedas possuem dois lados diferentes? Poderias afirmar categoricamente que todas elas possuem um lado "cara" e outro "coroa" e que nesse monte em teu bolso agora não há uma sequer que tenha duas "caras" ou duas "coroas"?
- Claro que sim! - respondeu imediatamente o homem, visivelmente transtornado. Toda moeda tem necessariamente dois lados diferentes!
- Aceitaste nosso acordo, então, pois deste-me uma resposta. - falou, abrindo um leve e disfarçado sorriso. Prosseguirei meu raciocínio.

Com um sobressalto Lúcia percebeu que seu ponto chegara. Fechou rapidamente a revista, enfiou-a apressadamente na bolsa e levantou-se do banco em disparada, quase correndo até a porta do ônibus. Deu sinal quase em cima da hora; menos de cinco segundos depois o veículo parou, abriu suas portas e a moça desambarcou. Pensou na história, mas seus pensamentos foram invadidos pela lembrança de sua discussão com Silvana. Não sentiu remorso algum, apenas preocupou-se por não saber como estariam as coisas àquela hora.
Chegou em casa, cumprimentou sua mãe com um beijo estalado no rosto e foi logo para seu quarto. Planejava terminar a história sentada na cama e depois fazer qualquer coisa que lhe viesse à mente. Já havia escurecido, poucas pessoas passeavam pela rua e o silêncio parecia ter ordenado veementemente a prisão de todo e qualquer ruído. Lúcia colocou seus pertences sobre a mesa, pegou a revista e deitou-se, retomando a leitura de onde parara.

O senhor pegou o homem pelo braço e, puxando-o, foi com ele até um banco de madeira. "A essa altura não há nada a fazer senão escutá-lo, Deus. Eu mereço mesmo isso!", pensava consigo o outro, acompanhando o desconhecido a contragosto, sem esboçar, todavia, sombra de reação qualquer. Sentaram-se ambos.
- Bem, como eu dizia, - retomou o velho - talvez seja importante pensarmos sobre o fato de que não sabemos se definitivamente as suas moedas possuem ou não dois lados distintos. Diga-me, já paraste alguma vez para analisá-las?
- Não, nunca - respondeu, curta e grossamente. Queria que aquilo acabasse logo para poder prosseguir seu caminho e não ter que ser incomodado daquela forma.
- Pois façamo-no agora, então. Dê-me todas as moedas que deixaste cair, por favor.
Não houve hesitação em obedecer por parte do outro. Se o sujeito quisesse levar-lhe aqueles míseros reais que assim o fizesse, contanto que não lhe atormentasse mais. Entregou-as todas a ele e aguardou. Por longos segundos nada foi dito. O senhor apenas olhava-as, virava-as uma por uma e soltava um grunhido ao passá-las de uma mão a outra depois do que aparentava ser uma vistoria. 
- Muito bom! - exclamou, parecendo muito contente - Todas elas possuem dois lados, mas...

- Lúcia, minha filha, você vai jantar? - gritou a mãe da ponta da escada.
A mulher assustou-se.
- Não sei, mãe. Já falo com a senhora.
Ela não estava a fim de passar aquela noite em casa, mas não refletira sobre isso até aquele momento. Pensou em ligar para Júlio, seu namorado; a vontade sumiu, no entanto, quase imediatamente. Queria algo diferente dessa vez. Talvez um restaurante. Um bar. Uma casa de show. Uma balada! Era isso mesmo. Não precisava nem ficar até o fim. Poderia só dançar um pouco e depois voltar. Que mal poderia fazer? Além disso, ninguém precisava saber. O problema era contar à sua mãe. Tentou achar uma saída, embora sua mente não estivesse contribuindo da forma que deveria. Leu mais um pouco, ainda que sem vontade alguma.

...Todas elas possuem dois lados, mas nem sempre reparamos nisso. Quando as vemos de relance ou não temos contato direto acabamos por não analisá-las e, portanto, esquecemos dessa característica fundamental, inerente a todo...

Uma idéia atingiu-lhe a mente como um míssil. E se contasse toda a história de Silvana e dissesse que iria sair para vê-la, simplesmente a fim de verificar se a amiga estava bem? Era uma boa mentira. Sua mãe provavelmente acreditaria e ainda daria o maior apoio. Era isso mesmo!

...inerente a todo metal que chamamos de moeda. Podemos chegar a pensar que já as conhecemos por completo se não as observarmos com atenção e cautela.

Fechou a revista e foi se trocar. Desceu as escadas depois de aproximadamente quinze minutos, falou tudo que planejara, explicando os mínimos detalhes do ocorrido e, exatamente como esperava, ganhou a permissão sem restrições de ir ajudar sua colega.
Quase cinco horas se passaram até que ela finalmente retornasse. Estava exausta, absolutamente cansada. Não encontrando sua mãe foi-se ao seu quarto e em pouquíssimos minutos após deitar-se em sua cama adormeceu.
No dia seguinte acordou sentindo uma enorme dor de cabeça e lembrando de pouca coisa. Sabia apenas que saíra para uma balada e..."meu Deus!". A exclamação não poderia ter sido mais alta. Se estava se lembrando corretamente dos fatos, isso significava que...
- Não, não pode ser! Não foi isso que aconteceu!
Naquele momento sua mente estava a mil. Não conseguia encontrar uma forma de negar as imagens que lhe vinham à visão. Seu olhar estava perdido. Avistou a revista que deixara no quarto na noite passada e decidiu lê-la, numa tentativa desesperada de cessar os pensamentos. Notou que ainda não terminara a história da noite passada e decidiu retomá-la.

O homem não via utilidade alguma naquilo tudo. 
- Sim, meu senhor. Mas o que isso muda na minha vida?
- Não disse que haveria de ocorrer mudança alguma. Apenas queria explicar-te sobre a importância de estarmos atentos às moedas que carregamos conosco. Dificilmente encontraremos uma com lados iguais, mas nem por isso devemos deixar de procurá-las. Dessa forma descobrimos mais sobre as que possuem lados diferentes que ainda não nos foram mostrados. Nem tudo aparece, nem tudo é visto. Muitas coisas ficam encobertas e por isso esquecemos de nos questionar se elas estão lá ou não. Na maioria das vezes, haverá sempre duas faces de uma mesma moeda. A questão é se temos conhecimento disso ou não.
Sem dizer mais uma palavra, o velho largou todas as moedas na mão do outro homem e saiu caminhando como se nada tivesse acontecido. O rapaz, em choque, levantou-se e seguiu seu caminho. Não entendera nada do que o velho dissera e arrependeu-se por ter lhe dado atenção e perdido tanto tempo com uma besteira daquelas, mas talvez ainda fosse cedo demais para sua mente trabalhar. Afinal, eram apenas sete horas da manhã.

Júlia terminou a leitura com a sensação de que aquilo não lhe servira para nada. "Eu com um baita problema e perdendo tempo com essa baboseira", disse para si mesma. Seu coração queria saltar-lhe pela boca, mas ela fez força para segurá-lo dentro de si.
Eram 6h59 quando olhou o relógio antes de sair de casa para o trabalho. Ainda não pensara como contaria à sua amiga que na noite passada mentira para sua mãe, fora a uma balada, bebera além da conta e beijara vários estranhos. Talvez fosse melhor não contar...
Na sua pressa acabou por deixar cair várias moedas no chão, abaixando-se rapidamente para pegá-las. Lembrou-se vagamente do que lera na revista. Reforçou em sua mente a opinião de que fora totalmente inútil e continuou seu caminho.

domingo, 24 de outubro de 2010

Um Grande Tombo

Para ela era apenas mais um dia de pressa e desespero, onde deveria correr o quanto pudesse para fazer tudo a tempo. Para ele nada mais que uma segunda-feira usual, com pessoas apressadas por todos os lados e uma garoa não tão comum, porém fraca o suficiente para se tornar suportável. Caminhavam como se o resto do mundo não existisse, mostrando claramente não notarem a presença um do outro. Bom, pelo menos assim foi até o momento em que ela, em sua correria e afobação, tropeçou e foi direto para o chão, estatelando-se com um baque que insinuava ter doído. Se não fosse por aquilo, provavelmente os dois chegariam ao ponto de ônibus sem jamais trocar sequer um olhar, mas aquela situação mudara tudo.
Ele, demonstrando profundo cavalheirismo, correu na direção dela e estendeu sua mão para que pudesse levantar, conferindo cada mínimo centímetro do seu corpo para ver se algo não havia se quebrado ou simplesmente desaparecido. Ela, por sua vez, não pôde deixar de reparar: quão verdes e profundos eram os olhos daquele homem e seus cabelos tão negros que pareciam até terem sido pintados com uma tinta jamais vista ou descoberta por qualquer outro humano. Dois detalhes que conferiam um chamativo contraste com sua pele de tom claríssimo. “Nossa!”. Ela simplesmente perdera-se em tão abundante beleza – pelo menos a seu ver – e não notara que o homem falava com ela.
- Moça, está tudo bem? 
- S-s-sim! Está sim! – respondeu abruptamente, como se acordasse de um transe aparentemente inescapável.
- Que bom, porque foi um belo de um tombo! Pensei que pudesse ter sofrido algum machucado ou mesmo torcido o tornozelo, algo do tipo.
- Não, e-está tudo bem, sim. Obrigada! 
Mesmo que não estivesse ela não poderia notar; estava tão absorta em seus pensamentos e no choque que acabara de receber que já não pensava com clareza, sentindo como se seu cérebro tivesse parado de mandar os alertas referentes à dor. Podia ter até mesmo sofrido uma fratura exposta e nem sentir, pois sua mente já não se fazia mais presente naquele corpo. 
- Por acaso estava indo para aquele ponto? – falou ele, apontando em direção a um ônibus que estava a pouco mais de seis metros à frente. 
- Sim, estava. - falou ela, quase soletrando, ainda meio desnorteada, como se procurasse as palavras certas em um vasto dicionário de uma língua desconhecida.
- Pois então acho que podemos ir juntos! Estou indo para um compromisso e preciso pegar exatamente esse ônibus.
Ao ouvir essas palavras a alma dela se encheu do mais puro ânimo. Era como se seu dia tivesse sido refeito e nenhum de seus problemas importasse mais. Pensou imediatamente nos inúmeros filmes de romance com nomes melosos e enredos – para ela – emocionantes. Sentia uma emoção dentro de seu peito que parecia não poder ser controlada e imaginou que com ele também acontecia o mesmo (o que talvez fosse efeito do sorriso enorme que o rapaz prontamente lhe dera há alguns poucos segundos). A magia do mundo havia voltado! Sua vida não seria mais a mesma, pensava consigo.
Os dois embarcaram e sentaram ao lado um do outro. Conversaram durante a viagem inteira como se fossem velhos amigos que não se viam há anos e precisavam ininterruptamente colocar o papo em dia. Descobriram que gostavam das mesmas bandas – o que só aconteceu quando ela notou um som familiar vindo dos fones de ouvido dele, que pareceriam ter sido esquecidos ligados propositalmente, não fosse por conta da confusão. Falaram sobre tudo que se é possível falar em uma viagem de trinta minutos. Ela, em seus pensamentos, não sabia descrever o que sentia, mas entendia que era bom e que queria que ele ficasse ali para sempre. Mas, como se o tempo corresse contra eles, o ônibus se aproximou do local onde se separariam.
- Desço no próximo – falou ele levantando-se rapidamente e aparentando estar triste por ter que pôr fim à diversão.
- Tudo bem então! Obrigada por ter me ajudado! - respondeu a mulher, abrindo um grande sorriso que mostrava exatamente o que sentia: pura alegria.
Como se fosse sua obrigação fazê-lo, o homem devolveu o sorriso, colocando-se agora frente à porta do ônibus e aprontando-se para desembarcar. Arrumava seus fones de ouvido e parecia procurar alguma música que quisesse, embora não demonstrasse muita certeza de sua vontade no momento. Ela não fazia nada além de observá-lo, lembrando-se que talvez jamais o visse novamente e que precisava registrar aqueles momentos. Ainda assim, sentia dentro de si que amanhã mesmo se trombariam e travariam mais uma longa batalha, competindo para ver quem conseguiria falar mais. Finalmente o veículo parou, as portas se abriram e ele desceu sem olhar pra trás, deixando apenas um resquício de seu perfume no ar.
Durante todo aquele dia a mulher não fez mais que pensar nele. Foi extremamente difícil concentrar-se em suas atividades, uma vez que os únicos pensamentos recorrentes em sua mente continham imagens de um casal passeando por parques, indo ao cinema e esbanjando todo o amor que tinham para dar. Não era de se espantar que não tirasse o sorriso do rosto nem sequer por um momento, mostrando um ar claramente apaixonado. Ao fim do expediente, o que se deu dez horas após o incidente, a memória daquele rapaz ainda não deixara sua mente; pelo contrário, tornara-se mais forte e carregada de sentimentos e expectativas. Sem dúvida alguma o veria novamente e aí teria chance de pegar alguma informação que lhes pudesse fornecer um contato permanente, pensava ela.
Saindo do prédio onde trabalhava dirigiu-se para o metrô, que, naquela noite, seria seu meio de transporte. Era inegável que preferia o ônibus, uma vez que este a deixava muito mais perto de sua casa, mas olhar para aquela fila quilométrica esperando para embarcar num veículo que parecia não poder conter metade daquelas pessoas com certeza a desanimou completamente. Descendo as escadas e alcançando a bilheteria, comprou sua passagem. Seguiu em direção à plataforma. Não demorou muito para que o trem chegasse.
As portas se abriram, aqueles que precisavam desembarcar o fizeram e ela entrou no vagão, sentando-se ao lado de uma das janelas. Podia notar que estava excepcionalmente vazio, não fosse por um senhor roncando alto alguns bancos à frente e um casal em pé, encostado em uma das portas. Era incrível como o amor lhe parecia belo naquele momento e como lhe fazia bem ver aquelas duas pessoas se beijando, trocando todo o afeto que lhes era possível. Tão incrível quanto isso foi perceber que o homem, embora estivesse de costas, se parecia muito com aquele que estivera em seus pensamentos durante todo o dia. Como ela queria ser aquela mulher,pensava, tendo a sorte de estar nos braços daquele rapaz que nem o nome sabia ainda. Mas, para seu espanto, talvez a mulher tivesse realizado o desejo ao pé da letra. Era ele - constatou ela após reparar nos cabelos extremamente negros - o mesmo cara que há algumas horas a ajudara a levantar e se mostrara tão prestativo.
O choque foi tão forte quanto o tombo que naquele mesmo dia experimentara. Não conseguia mais achar os pensamentos dentro de sua mente. Ela o amava, por menos de vinte e quatro horas, mas o amava. Aquilo definitivamente não poderia estar acontecendo, pensava consigo. Sua única reação foi encarar o casal como se seu olhar fosse atraído por uma espécie de magnetismo extremamente forte. E, para seu crescente desgosto, percebeu repentinamente que o homem também a olhava. Os dois já não se beijavam mais e ele só conseguia retribuir o olhar, mas não da mesma forma que o recebia. Os sorrisos haviam morrido nos rostos de ambos. Ela sentia-se traída; ele, um grande enganador. Levantando-se rapidamente, ela foi em direção à porta, tentando evitar as lágrimas que insistentemente pareciam querer pular de seus olhos. Todas as imagens que o dia inteiro cultivara despedaçavam-se ali e não havia nada que pudesse fazer para evitá-lo. Assim que o trem estacionou na estação, ela andou o mais rápido que pôde, sem olhar para trás, numa tentativa frustrada de barrar o sentimento que agora crescia em seu peito; um misto de aperto e desilusão. Novamente distraiu-se e o resultado não foi muito diferente daquele anterior: tropeçou e foi, mais uma vez, parar no chão.
Uma voz surgiu por detrás dela, com um tom grosso, porém extremamente sereno e claramente prestativo. 
- Moça, está tudo bem? 
Ela, sem ao menos virar-se para ver quem falava, levantou-se e pôs-se em posição novamente. 
- Sim, obrigada. Estou bem.
Não queria ajuda, não precisava de ajuda. E, como se todo aquele dia jamais tivesse acontecido, voltou a andar, pensando apenas no jantar que provavelmente a esperava quando chegasse em sua casa.


(Tive um surto de idéias durante o dia, indo pra escola, e resolvi escrever o texto baseado nisso. Na verdade, foi o primeiro conto que concluí e gostei do resultado. O texto é de 08/10/2009.)