domingo, 30 de outubro de 2011

O maior arquiteto

Há um tempo demoli uma casa. Já havia lhe consertado as paredes, ajeitado as janelas, remodelado todo o interior e ainda assim a visão não me agradava. Parecia-me, àquele momento, um tanto espaçosa demais, meio sem identidade, perdida num mar de confusões e cores deslocadas. Faltava-me pouco descontentamento para que finalmente a pussesse abaixo. O sentimento foi-me completado e a atitude tomada quando veio-me à mente a idéia de outra construção.
Essa nova casa seria menor, com espaços um tanto mais estreitos, um jardim à sua frente e pinturas mais vivas. Tencionava eu enchê-la de alegria para que pudesse aos outros também fazer sorrir. Se tão boa me parecia, tanto difícil quanto bela também se tornava. Mas pus-me a erguê-la. Tijolo sobre tijolo, dia após dia. Semanas ensolaradas de esforço e exaustão, com pouca ou nenhuma pausa pra alguma reflexão. Ao cabo de 40 dias eu a havia concluído.
Reluzia, brilhava e se entregava ao sol como se entregam os amantes ao seu desejo pelo outro. Não lhe fiz muita propaganda a princípio, posto querer admirá-la e retocá-la aos poucos sem que tais coisas fossem influenciadas pela opinião alheia. E gostei, confesso. Gostei, na verdade, parece-me palavra pouco justa à intensidade do que senti; amei-a, seria melhor dizer. Amei-a com meu ser, deixei minha alma por ela - mas também para ela - vibrar. E foi ela, então, tudo para mim. Não esperava a retribuição do sentimento, logicamente; casas não amam. Pode até ser que o façam, mas nunca lhes demos bocas para que o falassem.
Alguns dias se foram até que eu finalmente a trouxe a publico. "Que obra divina!", diziam as mulheres. "Muito bem planejada!", homens da área concordavam. "Quero passar meus últimos anos aqui!", por fim os mais avançados em idade afirmavam. E todos a amavam, a todos ela conquistava, assim como a mim também fizera ao vê-la acabada. Engraçado como as paixões chamam-se fugazes apenas após terem-se ido.
Plantei as primeirais flores e vi em minha mente o belíssimo jardim que ali havia de se desenvolver. Maravilhoso e imponente em sua pequenez e simplicidade. No entanto, algo começava a soar-me estranho. Uma voz trazida aparentemente pelo vento dizia-me não ser aquela casa algo tão bom; contrariava, entretanto, meu coração, que a ela se doava e em sua homenagem ainda prestava elogios. Eu ignorava ambos e me atia a prosseguir meu trabalho. Sem muito pensar, sem muito pestanejar.
Aconteceu que um mês após tal episódio a voz do vento já não mais me soprava aos ouvidos, mas ao coração; este, por sua vez, contaminava-se com a blasfêmia proferida contra a edificação e abstinha-se de sentir o mesmo amor que outrora lhe fora tão inevitável. Eu ignorava agora aquilo que havia ignorado antes e atia-me a pensar, sem muito trabalhar, se a escolha de construí-la fora tão acertada quanto me parecera logo de início. Talvez o vento estivesse correto. Talvez as pessoas tivessem sido iludidas pelo novo, talvez eu mesmo houvesse me deixado persuadir por tanta novidade. A casa não era bela, afinal. Sentei-me, pensando quando a destruiria, pois não me parecia boa idéia tentar remendá-la. Soneto não era, certamente, mas assim como se faz poesia eu também a fizera.
Para a obra não chamei ninguém. Fui-me sozinho, descalço e, dessa vez, sem rumo fixo. Chegando-me frente a ela agachei-me e observei. Vieram-me de súbito os motivos pelos quais deveria destruí-la. Seus espaços eram demasiadamente estreitos, aquele jardim não era tão atraente e as cores vivas cegavam os olhos. Tanta alegria me parecia despropositada. Melhor era fazer uma outra, maior, mais larga, com uma pintura mais fria e possivelmente menos convidativa. Quiçá uma que se assemelhasse mais àquela que antes dela viera. O descontentamento foi-me então completado e a atitude, tomada.
No dia seguinte já não havia tijolo sobre tijolo, apenas ruínas, escombros coloridos. O céu estava nublado e eu iniciara a construção do que viria a ser a próxima casa. Não demoraria muito, cria eu, para que eu a vislumbrasse em sua concretude. Chamaria uma vez mais muita gente para contemplá-la e amá-la juntamente a mim.
O tempo se passou, eu a terminei e depois também a demoli. Demoli muitas outras que com muito ou nem tanto esforço construí. Meus amores por elas variaram em sua duração, mas sempre tiveram a mesma intensidade. Arrebatando-me por segundos ou meses, faziam-me vivo por aqueles instantes. Hoje tenho uma cidade inteira feita de entulho. Às vezes a acho feia e dela quero fugir, mas há momentos em que a amo como se fosse tudo que eu tivesse. Talvez a vida seja assim mesmo, talvez precisemos quebrar e construir, sem nunca parar, até achar uma casa que não derrubaremos. Uma casa que nos verá cair, que estará lá no dia de nossa demolição e resitirá, mais que nós, à impetuosa voz do vento. Uma casa que permanecerá até que alguém a ache desnecessária e, no seu lugar, resolva derrubá-la.

domingo, 23 de outubro de 2011

Uma escrava fugidia.

Não queria me deixar embalar. Não queria me deixar pertencer, menos ainda ser pertencido. Queria só caminhar sem minhas barreiras ou os empecilhos de outrem. E acreditei ser capaz. Acreditei no que me diziam meus guias interiores, ano após ano construídos com aqueles minúsculos blocos formadores dos sonhos. Eles sempre me disseram uma coisa quando o mundo me mostrava outra. Tão enganados quanto eu, pobres infelizes.
No fim da estrada soube por uma voz externa que o mundo é assim mesmo. Tudo que nos conquista, nos amarra. Tudo que deprezamos nos liberta. Pois desprezei minha vida então, se assim me viria de bom grado a liberdade. Mas não veio. Em seu lugar mandaram a agonia, o pesar e a lamentação. Talvez os sentimentos também tenham suas amarras, suas limitações e não possam andar por aí e se atirar em quem bem entenderem. Pensaram ser livres e usaram poetas crentes na liberdade para assim mostrarem-se ao mundo. Tão enganados quanto eles, pobres infelizes.
E a hesitação optou - ou foi ordenada - por fazer morada em mim. Achei ser a indecisão alguma forma de liberdade. Se todos escolhem, não preciso eu também fazê-lo. Isso me soou, por breves instantes que agora não sei precisar, como aqueles ventos de liberação da alma dos quais tanto nos falam. Mas senti então serem talvez os mesmos que a Enéias naufragaram e agora tencionavam levar-me junto. Desobedientes que eram, embora ainda subjugados às suas próprias ambições. Tão enganados quanto todos, pobres infelizes.
Tentei esvaziar-me, mas percebi que o vazio era tão preenchedor quanto a plenitude. E parei de julgar. Só entendi que o amor não me libertaria, pois junto a ele vinha o apego. O ódio tampouco me parecia saída, pois me forçaria a não gostar. O gostar me pareceu duvidoso; não era intenso como o amor - pelo menos assim me haviam ensinado -, mas não te largava sem deixar sequelas. Sequelas de comportamento ou de falta do mesmo. E nada mais me pareceu liberdade, posto ter tudo o seu lado oposto.
E me vi no espelho, este infeliz objeto obrigado a refletir mesmo aquilo que não lhe apraz. Vi os outros no espelho. Vi o mundo num espelho, pequeno, guardado dentro de um quarto escuro. Tão infelizes todos nós, pobres escravos. Escravos da química, da biologia, do universo, do planeta, dos outros, de nós mesmos. Escravos do ideal utópico da liberdade. Libertos apenas na utopia que nos escraviza. Por ela matamos, por ela morremos. Por ela sorrimos, por ela choramos. Dela nascemos, mas a ela talvez não voltemos. Uma escrava fugidia, que vive para nos servir e escravizar.
Tudo que nos conquista, nos amarra. Tudo que desprezamos nos liberta. Melhor consertar essa parte. 


sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Uma queda eterna

You fall. You fall and you wonder. You wonder if it will ever stop. Maybe you will fall forever, endlessly screaming in silence, waiting for someone to reach out a hand for you to hold. But no one ever came, no one will ever come. You realize this is your fate, falling forever and never being able to help yourself. I guess I'm not gonna change at least not now, not before I die. But if I'm doomed to this I should consider keep on living. Is it a good choice? Actually, way more appropriate than asking 'bout "considering" something would be speaking of possibilities. So, is it possible to keep on living?
Disappearing would be a good way out of this situation. A good way out of myself. In fact, the problem is who I am, who I've created inside of this body. This fucking confused, crazy, unstable and not realiable creature that lives inside this matter. The matter will disappear and will then take away these scars. I don't want them anymore. I don't wanna face myself in the mirror anymore. It only increases the pain, it only hurts more and more and I can find no cure for my disease. Day by day, I live but I'm not happy. I didn't ask for this, I didn't ask for existing. That was not my choice. So why am I forced to bear a choice that wasn't mine in first place?
It's a difficult decision but I swear to God I see no other solutions. I don't have any strenght left to rise up and keep fighting. And I just can't find it anywhere though I've searched for a whole life.
I'm just so lost. There's no light waiting for me in the end of this huge, scaring tunnel. There's only darkness, fear and sorrow. It's a cycle which I can't follow anymore.

sábado, 1 de outubro de 2011

Olhos fechados (Parte 1)


Correu. Foi-se em direção à porta na maior velocidade que conseguiu atingir, mas o tempo, ao que parece, naquele dia não se inclinara à bondade. Seu relógio já lhe alertava sobre o atraso e agora o metrô tratava de revolver o problema momentaneamente enterrado. Parou a poucos, contáveis centímetros do trem e bufou. Não é possível que meu dia esteja desse jeito. Hoje a sorte resolveu virar a cara para mim, pelo visto.
         Aparentemente enganara-se, pois as portas do vagão abriam-se novamente à sua frente. “Não segure as portas do trem. Isso provoca atraso em todo o sistema”. Ok, isso não vira ninguém fazer, mas já que aquela mesma sorte, há até alguns segundos distante e impassível, agora girava um pouco o rosto para o lado a fim de lançar-lhe um olhar de soslaio era melhor que aproveitasse a deixa e adentrasse logo o veículo.
         Pelo menos isso, pelo menos isso. Sentou-se ao lado de uma criança inquieta que rolava seus dois carrinhos pela janela. “Mãe, mãe, o azul é mais rápido, olha!”. A mulher dirigiu ao garoto um sorriso, fingindo se importar mas lembrando a si mesma de que o marido ainda não voltara de seu passeio da noite retrasada. “Onde estará, meu Deus? Como pode sumir assim? Será que o canalha me trocou por uma vagabunda por aí? Mas se eu pego ele... vai ver que dele não sobra nem metade”. Ah, agora essa barulheira. Vou é me sentar em outro lugar. Ninguém merece criança chata a essa hora do dia.
         E levantou-se. Fisicamente com o andar habitual, mas mentalmente com a mesma pressa – ou talvez até maior – que tivera fazia alguns minutos em sua tentativa de não perder o trem. A mulher e o filho ficaram para trás; ele brincando com a irrealidade externa da brincadeira e ela tentando concretizar internamente aquilo que lhe parecia ainda pouco real. Caminhou por entre os carros até alcançar quase a outra extremidade da composição. Sentou-se novamente. Que bom, aqui não tem ninguém irritante. Sua cabeça parecia ser atraída para a parede. O sono colaborava, claro. Sem pestanejar recostou-a e relaxou. Só não podia perder a estação. Daqui três preciso descer. Não posso esquecer de pegar as flores no quintal da dona Neide olha que coisa mais bela! Quero uma assim na minha casa. Não, não, sem muito cheiro se não a alergia me ataca e você viu o noticiário? Chuva de asteróides? Imagina, que absurdo a mãe dele dizer tais coisas. Ah, olhe o céu. Olha que coisa mais bela!
         Pum! Seu corpo sacudiu e seus olhos piscaram. Cochilara sem perceber. Preocupou-lhe saber onde se encontrava e olhou para fora do trem. Ainda bem, faltavam duas estações. Que bom que não dormi tanto assim. Mas preciso tomar cuidado, senão dona Neide! A senhora por aqui! Como vai? Pum! Droga, não posso dormir! Por que diacho não fui pra cama mais cedo noite passada? Estou tão cansad... “Uma chuva de meteoros cairá essa noite na Terra. Para aqueles que estão nos observatórios do Hesmifério Sul será um espetáculo”. São meteoros, não asteróides! Esse povo tá doido! Preciso contar a ela que... Pum! Acordou novamente e arregalou os olhos até quase saltarem das órbitas. Acorda, caçamba! Se eu passar da estação e atrasar ainda mais meu chefe me estrangula. Acorda, senã...
         Seu olhar se deteve. O corpo inteiro retesou e o coração saltou-lhe à boca. Se a beleza podia tomar forma humana, se lhe era possível encarnar-se entre os pobres mortais desse planeta então ela estava ali naquele momento. Olhos brilhantes, cabelo como nenhum outro e corpo esculpido a dedo pelo mais talentoso artífice já existente. O rosto se delineava em pura perfeição. O mundo definitivamente parara. Como poderia aquilo ser real? O que é isso? Ele é o homem mais lindo que já vi em toda a minha vida. E seus 29 anos lhe davam certa moral para dizê-lo. Será que ele tá me vendo? Meu Deus, mas e se ele... Quantas estações faltam? Merda, é a próxima. Logo agora que esse cara chegou aqui. O que que eu faço?
         Num misto de faz-não-faz, fala-não-fala, vai-não-vai levantou-se. O leve balanço do trem desnorteava um pouco mas não era suficiente para lhe tirar o equilíbrio. Um passo à frente, dois para trás e o arrependimento lhe golpeando incisivamente o coração. O que eu posso fazer, oras? Falar um oizinho como se fôssemos colegas? Não, não rola. Mas ele é tão... “Próxima estação, Pinheiros". Ele levantou, ai meu Deus! Será que eu não to horrível? Deveria ter me arrumado melhor. Ah, não! Saiu do metrô junto com a multidão (coisa rara na estação Pinheiros esse metrô cheio assim!) debatendo em cochichos retóricos o quanto aquele dia se lhe mostrava ingrato. Perder um cara lindo daqueles, como pude?
         Verdade é que o rapaz – ou deus grego, se assim convier – apenas mudara de lugar, sem insinuar realmente intenção de deixar o meio de transporte. Melhor ir trabalhar e não pensar nessas bobeiras. Ganho muito mais! E foi-se, com pressa, desassossego e nervosismo. Um pouco de cada pra completar seu belo dia. É, isso mesmo. Tudo pra completar meu dia.
        

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Claro

Pinga, pinga, pinga
Repete o som da canção
O meio e o fim da sensação
Tocam-se como velhos parceiros

Se há ou não verdade nas palavras
Deixo aos outros a análise
Mas real é esta minha catarse
Disso não abro mão

Creia quem o quiser
Desista aquele que assim desejar
Ajoelhe-se o pobre sem lar
E chore o palhaço no circo

Que saibam todos:
"A verdade se dá a poucos"
Fujam então os outros
Corram para além-muro

Pinga, pinga, pinga
Escorre pelo rosto e vai ao chão
Que consigo vos leve o perdão
E que a noite se faça manhã

Não seja eu o mesmo amanhã
Sejamos nós o céu do universo
7 bilhões de estrelas a brilhar
E o mundo talvez clarear

O lixo já está cheio!

Gritou. Gemeu, contorcendo-se em sua pequena gaiola. A sensação era intensa. Seu corpo inteiro doía, seus olhos ardiam. O olfato captava um leve cheiro de queimado, mas os olhos não respondiam ao cérebro. Permanecia sem nada ver. Só a escuridão e os ruídos estavam alí.
- Não acha que seria melhor subir um pouco a voltagem?
- Lógico que não! Ele ainda não se acostumou. Vê? Continua esperneando como se ainda fosse o primeiro choque. Aumentar a intensidade poderia matá-lo.
Pareceu ter recobrado um pouco a consciência e se pôs a fazer barulhos numa tentativa frustrada de chamar a atenção de alguém. Não se pode dizer que raciocinava, posto não possuir sequer uma língua; os sinais de sofrimento, no entanto, eram claríssimos. Se pudesse falar provavelmente estaria pedindo socorro ou dizendo impropérios àqueles dois homens. Talvez fizesse os dois, na verdade.
- Vamos lá!
Um deles apertou o botão e novamente os gritos encheram a sala. Nada mais se ouviu durante cinco segundos; somente o escandâlo e o som do corpo se batendo em desespero contra as grades. Breves segundos que para aquele ser assemelharam-se a anos. A eletricidade deixou, então, de correr, cessando também a gritaria. A respiração da criatura estava ofegante, seu coração parecia querer sair-lhe pela boca. Os membros tremiam freneticamente enquanto ele se encolhia no chão.
- Droga! É tão difícil assim perceber que indo pro outro lado os choques param?
- E olha que esse nem é um dos piores. Lembra daquele que ficou 3 horas seguidas sendo eletrocutado até que finalmente decidiu tentar fugir e deu de cara com a outra parte? Às vezes eles dão um trabalho.
- Nem fale. Pior é quando nos mordem! Já perdi a conta de quantos me feriram quando tentei agarrá-los.
O botão foi então novamente pressionado e o martírio voltou.
- Mas sabe de uma coisa? Não sempre, mas ocasionalmente acho legal ver as reações de alguns deles.
- Sério?
- Sim. Só me irrita muito quanto vomitam em tudo. Dá um puta trabalho limpar essas porcarias e aí vem um infeliz pra sujar novamente.
- Ah, isso é verdade. Pelo menos esses aqui não ficam cheios de feridas pelo corpo. Melhor assim, sem sangue.
- É, mas de vez em quando surgem umas hemorragias, né? Dependendo de como for é outra coisa que exige muito tempo pra consertarmos. Bom mesmo é quando é só hemorragia interna.
- Você se diverte vendo isso tudo?
Os dois pareciam, naquele momento, ignorar o choque que continuava a ser aplicado, embora a criatura estivesse fazendo um barulho muitíssimo maior se comparado aos testes anteriores. Jogava ainda com mais força todo o seu peso contra as paredes da gaiola. Era inútil, no entanto. A armação não se movia um centímetro sequer. Nada mudava. Tombou, sentindo estar a ponto de sucumbir, de não mais suportar aquela sensação. Seu corpo ardia, latejava; sua cabeça estava atordoada. A boca secara quase completamente. Espremia os olhos e compactava o corpo o máximo possível.
- Não diria se tratar exatamente de diversão. É curioso ver as expressões faciais, os movimentos, ouvir os guinchos e o esperneio todo. Para mim, parece um daqueles passatempos perfeitos para os momentos de tédio, sabe? O melhor é que nos pagam por isso.
Ambos riram, deixando grandes sorrisos tomarem conta de seus rostos.
- Entendo. Não difere muito de mim, então. Gosto também de ver como se desenvolvem depois. O comportamento depressivo, a insônia, a agressividade. Tem muita coisa que não colocamos nos relatórios, mas...
- PORRA! Você desligou o negócio?
- Que negóci... Não, não desliguei! Merda, merda, merda!
O homem correu para desativar o mecanismo, amedrontando em pensar que a cobaia talvez não tivesse resistido ao choque contínuo. Aproximaram-se da jaula e observaram. Nenhum sinal de respiração, nenhum choro. Nada. Só o silêncio. Trocaram olhares e pegaram as chaves para abrir a portinha e retirar o corpo já inerte daquela criança. Quando pegaram-no parecia estar dormindo. Um sono leve, calmo, como se sua mãe o tivesse no colo e nada pudesse, portanto, lhe fazer mal. Seu sono, entretanto, era profundo demais para que um dia dele despertasse. A morte chegara a ele em menos de dois anos de vida. Seu sofrimento se esvaíra.
- Cacete, viu?! Se ficarmos errando certamente seremos demitidos! Colocarão um fim à nossa experiência.
- Eu sei, eu sei! Não precisa falar.
- Ele era o A19, né?
- Devia ser, sei lá! Caralho, esse lixo aqui já tá cheio!
- Pega um outro, então! Saco é o que não falta.
O homem abriu um armário embutido e retirou uma sacola, depositando aquele pequeno humano dentro dela. Amarrou com força e colocou-a ao lado do cesto que estava lotado. À noite levariam os resíduos e o laboratório ficaria limpo. No dia seguinte chegariam alguns bebês novos para dar prosseguimento aos testes, mas isso não lhes preocupava muito. Já viriam até numerados, o que facilitava o trabalho. De onde aquele saco novo saíra havia muitos outros e os lixos já teriam sido esvaziados pelo amanhecer. Só rezavam para manterem seus empregos e conseguirem algum resultado em suas análises.

A destruição inerente

Um enigma sem solução, a charada à qual ainda falta resposta. Não fosse eu respondê-la talvez nenhuma alma o fizesse; difícil crer que mesmo o desalmado tal êxito alcançasse. Olhei para os lados, sem encontrar o suposto objeto tão mencionado. Disseram-me algumas dezenas de vezes ser infinitamente melhor procurar dentro de si, entretanto. Mas como seguir um conselho dessa natureza se nem mesmo creio haver algo no interior para a visão tentar buscar? Estão todos errados, concluo! Nada sabem, sobre nada falam! Enchem suas bocas de vãs palavras, prontas a serem lançadas para os inferiores idealizados. Se me imputam esta condição já não faz diferença. Inferior ou superior, o despropósito parece não variar tanto, tampouco diretamente. Inúteis são, embora úteis tentem fazer-se. É o nosso destino; inescapável como o dia de amanhã. Não para todos, haveremos de concordar.
A alguns tomo por certo a não existência do amanhã. Se deixarem seu ar escapar, voar, se perder; se a psyché puder caminhar com suas próprias pernas; se seu "eu" lhes abandonar e sozinho se puser a vagar é provável que não abram os olhos novamente. Uma pena será, no entanto, não haver Hades para ir. Talvez isso faça alguma diferença. Talvez o último suspiro antes do esquecimento eterno traga alguns tremores, embora os astrônomos possam posteriormente afirmar não terem notado oscilações na organização espacial dos planetas. Nem um astro novo, para a infelicidade de muitos. Dirão também os geólogos que a Terra em nada se alterou e com estes concordarão os físicos; por descuido, todavia, esquecerão a redução do espaço ocupado, posto haver um corpo a menos se movendo pela superfície terrestre. Mexendo um pouco no esquadro e ajustando as medidas torna-se fácil perceber a insignificância da vida humana, não?
Mas teimam, ainda assim, em inflar-se como se verdadeiros deuses fossem. Pouco importa que lhes falte capacidade de administrar suas próprias vidas; sabem fazê-lo bem demais quando se trata dos interesses alheios. Alguns anos na escola, estudo gramatical e grande aquisição vocabular não são suficientes para que recordem a importância do outro a fim de se construir o diálogo ou mesmo o conceito de "respeito". Poderiam refazer a lição de casa se tivessem mais tempo, mas não estou certo de sua capacidade de aprendizado. Reencarnações poderiam, portanto, não se prestarem à utilidade. Mesquinhos, hipócritas. Tão hipócrita quanto este que agora rearranja estas palavras. Farinha do mesmo saco. Inescapável, certo? Imutável, quiçá.
No final, pouco sentido há em responder a questão. A esfinge pode esperar muito tempo. Sua fome é saciada diariamente com aqueles que não chegam ao amanhã. E tudo por, provavelmente, não saberem a resposta. Mas se soubéssemos haveríamos de devorar-nos uns aos outros? Outra pergunta sem solução. A verdade é que mesmo sem resposta já nos devoramos. O homem pode ser o lobo do homem, mas certamente é também uma esfinge. Esfinge sem conhecimento, que não sabe realmente aquilo que desejaria escutar e devora, então, absolutamente tudo.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Os privilégios da comunidade LGBT³ brasileira

Ok, eu meu rendo. Dou o braço a torcer, meu caros. E não só eu, mas todos os homossexuais desse Brasil. Nós concordamos, finalmente. Foi difícil, mas a tempo abrimos os olhos. Estão certíssimos. Somos privilegiados e isso deve, sem dúvida alguma, ser combatido. A quem ainda restam dúvidas, melhor dar uma olhadinha em nossa vastíssima quantidade de privilégios. Pra facilitar as coisas, uma listinha com comentários. Vamos lá?

1) Temos o privilégio de não sermos respeitados.
Começamos arrassando já!
2) Temos o privilégio de não podermos construir uma família da mesma forma que um casal heterossexual.
Filhos? Pra quê?
3) Temos o privilégio de viver com medo de levar uma surra em qualquer esquina.
Opa, pura adrenalina, hein?! Pra quem gosta de viver no perigo esse é certamente sensacional.
4) Temos o privilégio de sermos chamados de pedófilos.
Ahh, esse é lindo. Quem não gosta de ter sua imagem denegrida e ser tratado como aberração?
5) Temos o privilégio de sermos muitas vezes rejeitados por família, amigos e desconhecidos.
Quem precisa de tudo isso? Relações sociais e familiares são absolutamente descartáveis.
6) Temos o privilégio de arcar com os mesmos deveres como cidadãos, mas receber menos direitos que o resto das pessoas.
Ué, certamente melhor que os negros que teoricamente não tinham alma, né?!
7) Temos o privilégio de sermos chamados de bichas, de asquerosos, de imundos, de doentes, de viados, de depravados e muitas outras coisas.
Bem, damos muita felicidade àqueles que adoram inventar ofensas. Só com o nosso grupo já dá pra fazer uma boa lista de xingamentos.
8) Temos o privilégio de não podermos demonstrar afeto em público sem correr risco de vida.
Mesmo caso do item 3. Ah, sem esquecer que afeto, amor, carinho são coisas retrógradas e idiotas, nas quais ninguém acredita ou vê necessidade.
9) Temos o privilégio de ter grupos neonazistas, fascistas e religiosos (fanáticos) contra nós.
Quanto mais gente pra brigar, melhor.
10) Temos o privilégio de, especialmente no caso das travestis e transgêneros, não conseguirmos um emprego por nossa orientação.
Melhor ainda. Não queremos trabalhar. Queremos SÓ curtição, sexo grupal e drogas.
11) Temos o privilégio de sermos caricaturados e não chegar a desenvolver relacionamentos afetivos profundos na televisão.
Claro! Gay é tudo a mesma coisa, não?! É igual negro, mulher, nordestino, boliviano, pobre... grupos dentro dos quais todo mundo é absolutamente igual.
12) Temos o privilégio de causar espanto nas crianças e atemorizar os pais com a idéia de que seus filhos possam virar gays.
Lógico. Sexualidade é E-S-C-O-L-H-A, não determinação biológica como a ciência diz.
13) Temos o privilégio de ter heterossexuais achando que só nos aproximamos deles por querermos sexo; nunca por amizade, afinidade ou qualquer outra coisa.
E poderia ser diferente? Se SÓ queremos curtição, sexo grupal e drogas (item 10) é óbvio que pra nós TUDO se resume a sexo.
14) Temos o privilégio de não podermos, em hipóteste alguma, crer em deus ou professar seu nome. (lembrado por Victoria Atadini)
E quem quereria, por livre e expontânea vontade, acreditar numa força ou num ser superior? Pra que ter o direito de seguir uma religião e se sentir bem dentro dela sem causar mal a ninguém?
15) Temos o privilégio de não podermos dar lição de moral em ninguém.
O mais legal numa discussão não é justamente ter seu ponto de vista rebaixado e ignorado?
16) Temos o privilégio de poder mudar de gênero sem precisar de cirurgia, já que gays são igualados a mulheres e lésbicas tornam-se o mesmo que homens.
Simples, rápido e ainda totalmente de graça.

Ufa, acho que acabei os que tinha em mente. Se alguém lembrar de mais algum, por favor, avise! Vamos atualizando isso aos poucos pra sabermos o quão privilegiados somos.
Mas seria bom deixar um recado aos opositores antes de concluir. Nós reconhecemos TODOS esses privilégios em nossa classe. Temos plena ciência de que somos cidadãos num patamar diferente dos demais justamente por conta de tudo isso. E, já que há tanta insistência e reclamação, posso vos garantir uma coisa: lutaremos ferrenhamente pra que todos esses privilégios caiam por terra. Não queremos mais carregar uma bagagem mais pesada, maior que a do resto das pessoas; nunca quisemos, aliás, pois foi a própria sociedade que cuidou de nos privilegiar dessa maneira. Desejamos somente a igualdade e certamente brigaremos cada vez mais pra que cheguemos a ela. Pouco a pouco, trataremos de eliminar cada um desses 16 privilégios, até que não reste um sequer. Garanto que um dia conseguiremos, ainda que nos custe muito suor e sangue.
À comunidade gay, fica um outro recado: ergamos ainda mais alto nossas vozes em memória d@s que morreram por esses privilégios e daquel@s que ainda estão sujeitos a eles diariamente. Deixemos de ser privilegiados e lutemos tão somente para nos tornarmos exatamente o que devemos ser: pessoas iguais a tod@s @s outr@s; nem melhores, nem piores; nem menores, nem maiores.